Critica da teoria da alienação e do pluralismo vistas a partir do humanismo abstrato - Zhou Xincheng



Retirado do livro Critica do Socialismo Democrático Humanista, publicado pela Editora da Universidade do Povo da China, em 1997. Este livro apresenta uma analise sobre as diversas correntes do chamado “socialismo democrático” ou “socialismo humanista” surgidas na União Soviética, nos países do Leste Europeu e na própria China.


Zhou Xincheng


O socialismo democrático humanista, que tem o humanismo abstrato como ponto de partida, se opõem à ditadura do proletariado, à propriedade pública dos meios de produção e a posição guia do marxismo; dizem que o sistema socialista é um sistema construído de acordo com um modelo teórico abstrato, “imposto às pessoas“, como um sistema de ordem administrativa ou um sistema burocrático autocrático; um socialismo totalitário que aliena as pessoas da política, da economia, da propriedade dos meios de produção e da cultura, devendo ser “pulverizado”. O socialismo democrático considera que a razão para tudo isso está no fato de que nos diversos campos da vida social existe a “monopolização”, portanto, se faz necessário adotar o “pluralismo” nos diversos domínios da base econômica e da superestrutura. Isto quer dizer que, apenas quando na política for realizado o “pluralismo” na política , na economia o “pluralismo econômico” e na ideologia o “pluralismo ideológico”, se poderá eliminar o monopólio em vários domínios e assim realizar uma reforma básica em vários campos do edifício social. Nós consideramos que esses pontos de vista do socialismo democrático são completamente equivocados do ponto de vista teórico e que se forem aplicados necessariamente resultarão na restauração do capitalismo. A avaliação que o socialismo democrático humanista faz do socialismo real é baseado em uma visão abstrata da história, portanto algo completamente sem base.

Todos nós sabemos que a teoria do socialismo científico de Marx e Engels, foi estabelecido sob a base da investigação profunda das contradições sociais do capitalismo. Com o desenvolvimento da grande produção socializada, a propriedade privada capitalista passou a cada vez mais entrar em contradição com a natureza social da produção. O desenvolvimento das forças produtivas objetivamente exige que a propriedade privada dos meios de produção seja substituída pela pela propriedade pública. Porém, esse requerimento objetivo do desenvolvimento das forças produtivas encontra uma feroz resistência por parte da burguesia, portanto, apenas sob a liderança do partido político do proletariado, derrubando o poder político da burguesia e realizando a ditadura do proletariado é que ele pode acontecer. No entanto, para progredir vitoriosamente, a revolução e a construção socialista devem ser orientadas pelo marxismo.

É necessário destacar que o sistema socialista da União Soviética e dos países do Leste Europeu, chamado pelos socialistas democráticos humanistas de “modelo stalinista”, foi estabelecido de acordo com a teoria socialista científica do marxismo. Basicamente, tal sistema refletia os princípios básicos e as características essenciais do socialismo. Na política, persistia na liderança do Partido Comunista e da ditadura do proletariado; na economia aderia à propriedade pública dos meios de produção e à distribuição de acordo com o trabalho; ; no pensamento, tomava o marxismo-leninismo como ideologia orientadora. Todas essas características correspondem os requerimentos das leis do desenvolvimento social, portanto são corretas e não podem ser negadas. Sem dúvida alguma, devido restrições de circunstâncias históricas e limitações do conhecimento das pessoas, a prática do socialismo na União Soviética e no Leste Europeu cometeu vários erros, e na forma de realização específica das características básicas do socialismo, existiam várias deformações. Portanto, era necessário reformas. Porém, esses erros e deformação eram secundários, que se manifestavam em estruturas políticas e econômicas específicas, e não produzidas pela essência do sistema socialista. As reformas devem aperfeiçoar o sistema socialista, ou seja, transformar as formas concretas de realização das características do socialismo, adaptando-os às necessidades do desenvolvimento das forças produtivas, e não abandonar esses traços essenciais. Esta é atitude materialista da história em relação ao socialismo real.

O socialismo democrático humanista em relação à anterior prática do socialismo, que eles chamam de “modelo stalinista”, adota uma atitude completamente oposta. Eles tomam a humanidade, valores e uma liberdade completa do homem em termos abstratos como seu critério de julgamento; dizem que a adesão à liderança do Partido Comunista e a ditadura do proletariado seria monopólio político, que obstrui a liberdade política; na economia, a adesão à propriedade pública dos meios de produção como coluna vertebral da economia é considerada como um monopólio econômico, que obstruiu a liberdade econômica; na ideologia, aderir a posição orientadora do marxismo seria um monopólio espiritual, que impede a liberdade de pensamento. Todas essas características não correspondem a natureza humana. Assim, eles concluem que o socialismo real inevitavelmente produz, nos diversos campos da vida social, o fenômeno da alienação, portanto seria uma imposição aos homens, convertendo-se em um sistema despótico burocrático. Dessa forma, a reforma que eles propõem não visa aperfeiçoar o sistema socialista, mas sim abandonar completamente as características essenciais do socialismo, usando o socialismo democrático humanista (que na verdade é um capitalismo com algumas melhorias) para substituir o socialismo real. A partir da lógica deste raciocínio do socialismo democrático, não é difícil percebermos que sua critica ao socialismo real não parte da visão materialista da história, mas sim a partir de uma visão humanista abstrata da história. Ela usa os princípios da visão abstrata humanista dos “direitos humanos”, “igualdade”, “liberdade”, etc., para definir os símbolos básicos do socialismo. Isto é um erro básico, pois a burguesia, no período inicial da sua revolução contra o feudalismo, também utilizou princípios do humanismo abstrato, tais como “direitos humanos”, “igualdade" e “liberdade”, como bandeira e objetivo de luta. Por isso, os objetivos de luta do proletariado e da burguesia eram completamente equivalentes. No entanto, o que toda a história dos tempos modernos nos mostra é que sob tal bandeira o que foi realizado foram os “direitos humanos”, a “igualdade" e a "liberdade" da burguesia. Daqui podemos ver que, a critica persistente e a atitude negativa do socialismo democrático humanista contra o socialismo real não se apoia nos princípios do socialismo, mas sim nos princípios do capitalismo. O que eles criticam e negam não é a estrutura específica e os mecanismos operacionais que não atendem os requerimentos da prática socialista, mas sim o próprio sistema socialista; usam as deficiências no trabalho concreto do estado socialista, de seus problemas em seus mecanismos operacionais, como desculpa para traírem o socialismo. Usar esse tipo de pensamento para orientar as reformas apenas produzirá a restauração do capitalismo.

A “alienação” não é um conceito básico do marxismo, nem pode ser usado para explicar os problemas que surgem na prática do socialismo. Estando sob influência da visão humanista de Feuerbach sobre a alienação, Marx em sua época de juventude formou o seu pensamento sobre o trabalho alienado. Marx considerava que, da mesma maneira que na religião existia a separação do homem e sua essência, semelhantemente, no modo de produção capitalista existe o trabalho alienado, onde há a separação entre o homem e o seu trabalho. Falando concretamente, o trabalho alienado inclui quatro aspectos: 1º) Alienação entre o homem e o produto de seu próprio trabalho, ou seja, o produto do trabalho dos trabalhadores, como uma existência estranha que se opõe ao trabalhador; 2º) Alienação entre o homem e sua própria atividade (trabalho); a oposição entre o produto do trabalho e o trabalhador demonstra que o trabalho do homem já não pertence a ele mesmo, mas sim a outra pessoa, convertendo-se em um ferramenta para sua própria opressão. 3º) Alienação entre o homem e sua própria essência. A essência humana se expressa por meio dos produtos e da atividade do trabalho; a oposição entre ambos e o homem mostra que a essência humana também está separada. 4º) Alienação entre os homens. Pelo fato do produto do trabalho e o próprio trabalho serem apropriados por outra pessoa, existe uma alienação entre os homens.

Não é difícil perceber que o pensamento de Marx sobre o trabalho alienado é resultado do uso do ponto de vista da “alienação da essência humana” de Feuerbach para analisar a relação de trabalho assalariado no capitalismo; ele explica que sob a propriedade privada os trabalhadores estão separados dos produtos de seu trabalho e e atividades, porém o humanismo de cor abstrata não é abandonado, e ainda está limitado a colocar o problema da realização na fórmula abstrata especulativa da “contradição entre o indivíduo e sua essência”. Por essa razão, depois que o pensamento de Marx amadureceu, ele abandonou completamente o conceito humanista de alienação. Não apenas isso, Marx criticou as opiniões dos filósofos que apenas usavam o conceito de "alienação" para especularem abstratamente sobre o mundo real. Marx apontou que os termos “humano" e “inumano” são produtos das relações existentes. Porém, o lado positivo do termo “humano" é uma expressão definida das relações dominantes em um determinado estágio de desenvolvimento da produção e a forma de satisfazer as necessidades determinadas por essa relação, refletindo uma intenção real: manter este tipo de relação dominante, negando e combatendo o “inumano" significa destruir essas relações dominantes. Pelo fato de os filósofos não compreenderem essa contradição na realidade, eles absolutizam e mistificam a oposição entre os dois, propondo a teoria da alienação da essência humana. Marx ainda apontou que sob a base do entendimento abstrato sobre a “humanidade" e “inumanidade”, os filósofos resumiram a história da humanidade na fórmula histórica “não-alienação - alienação - não-alienação, “humano - não-humano - humano”; esta é uma explicação que basicamente não se difere da teologia medieval, que usa o “sagrado-não-sagrado-sagrado” como premissa para um estado ideal onde ou existe o sagrado ou o “homem real”, ou seja, é idealismo. Daqui podemos ver que Marx não usa o conceito de alienação como conceito básico para explicar a história da humanidade. O socialismo democrático humanista retoma o pensamento sobre alienação, que já havia sido criticado no passado, para definir a história humana, o que claramente é um retrocesso da visão materialista da história em direção ao idealismo.

Marx não advogava pelo uso da alienação para explicar a história da humanidade, no entanto, uma vez surgido na história, ele realizou uma investigação científica do fenômeno da alienação. Marx apontou que a alienação é um fenômeno histórico, produzido sob certas condições históricas e que desaparecerá sob outras circunstâncias históricas. Falando concretamente, a alienação surge sob determinadas condições históricas, onde o desenvolvimento das forças produtivas alcança um determinado nível de desenvolvimento, produzindo o aparecimento da divisão social do trabalho e da propriedade privada. A opressão e o antagonismo formado pelas relações sociais são resultado da atividade humana; é na sociedade capitalista onde tal opressão e antagonismo atingem o seu nível mais alto. Para eliminar a alienação é necessário eliminar a propriedade privada e a correspondente divisão social do trabalho. A sociedade socialista, pelo fato de ter estabelecido a propriedade pública dos meios de produção, mudando basicamente a condição de separação entre os trabalhadores e os meios de produção, basicamente eliminou a possibilidade para o aparecimento da alienação. O sistema do socialismo real encarnava as características básicas do socialismo, bem como garantia que amplas massas dos trabalhadores desempenhassem o seu papel de donos de seus próprios assuntos. Portanto, tal sistema é garantia fundamental para a superação para a superação da alienação provocada pela exploração e pela sociedade de classes baseada na propriedade privada. O socialismo democrático humanista, sem base alguma, toma o sistema socialista como a fonte da alienação. No que diz respeito aos problemas surgidos durante o funcionamento do sistema do socialismo real, eles não foram causados pela natureza desse sistema,sua natureza é completamente diferente da alienação surgida nas condições do regime de propriedade privada.

O “pluralismo" é uma aberração do ponto de vista filosófico, que se extendido para a vida social é um reflexo de uma visão humanista da história; colocá-la em prática como uma política, conduz apenas ao “unilateralismo" da burguesia.

O marxismo considera que o mundo é formado por matéria, unificado com a matéria, e a consciência é um reflexo da matéria. O mundo possui uma variedade de formas e estruturas, mas isso é apenas um reflexo das diferenças e da riqueza da existência material, e não uma prova de que a origem do mundo é plural. Este é o senso comum básico do materialismo. Quando advoga pelo socialismo humanista abandona e nega o materialismo. Eles consideram que o mundo é composto de muitos elementos independentes, que não são subordinados uns aos outros. Filosoficamente falando, isto é um absurdo. Assim como na história todo “dualismo” conduz inevitavelmente ao idealismo, a filosofia do "pluralismo" também é idealista.

No campo da vida social, o socialismo humanista democrático coloca adiante a teoria do “pluralismo”, baseada na visão humanista abstrata da história. Ele parte de um homem abstrato, não o homem real. A sociedade ideal é aquela sociedade que corresponde a natureza humana. Em tal sociedade existe amplos interesses, que são iguais e independentes uns dos outros. Para isso, é necessário aplicar uma política de “pluralidade”, ou seja, a diversificação econômica e ideológica, somente assim é possível cumprir os requisitos para o livre desenvolvimento das pessoas. Isto é um equívoco do ponto de vista teórico, pois abandona o conteúdo fundamental do materialismo histórico (ponto de vista de classe e método de analise de classe). De acordo com o ponto de vista do materialismo histórico, em uma sociedade de classes, não existem interesses que existem independentemente dos interesses de classe, e nem interesses pessoais que são completamente independentes,que não estão em conflitos entre si, no entanto, o que existe são interesses de classe essencialmente idênticos, que são estabelecidos pelo sistema de propriedade dos meios de produção; interesses de classes fundamentalmente opostos, de modo que os interesses comuns inevitavelmente se dividirão em interesses de classes diferentes. Todos os interesses pessoais reais são intimamente ligados aos interesses de classe que uma pessoa pertence. No que diz respeito ao socialismo, os interesses fundamentais das amplas massas trabalhadoras são completamente unificados, algo garantido pela propriedade pública socialista. Ao mesmo tempo, sob as atuais condições históricas, os interesses entre o proletariado e a burguesia são fundamentalmente opostos. Partindo dos interesses unificados do povo trabalhador, uma sociedade socialista pode levar a cabo atividades centralizadas e planificadas no campo político, econômico e ideológico, para garantir que os membros da sociedade socialista estejam unidos e avancem juntos, sem a necessidade de adotar medidas de “pluralidade”. Partindo da oposição fundamental entre os interesses do proletariado e a burguesia, a “pluralidade” não pode ser adotada, pois ela poderá fazer com que as atividades da burguesia sejam legalizadas, podendo até mesmo a vir ocupar um papel dominante na sociedade por meio da tomada do poder e da mudança do sistema.

A adoção do socialismo democrático humanista pelos partidos comunistas da União Soviética e do Leste Europeu, irrefutavelmente nos mostra que os chamados partidos de diferentes classes, os diferentes tipos de propriedade dos meios de produção, a igualdade entre as diferentes ideologias e a liberdade de competição do “pluralismo”, na prática, não existe. A realização do “pluralismo”, na prática, levou apenas ao abandono da ditadura do proletariado, a derrubada da posição de liderança do Partido Comunista, e inclusive sua legalização; a propriedade pública socialista foi substituída pela propriedade privada; a teoria marxista foi abandonada e substituída pela ideologia capitalista. Todos esses fatos indicam claramente o ressurgimento do capitalismo, portanto o que existe na realidade não é um “pluralismo”, mas sim o unilateralismo da burguesia.

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