Por que precisamos do Marxismo? Uma perspectiva chinesa [1][2]






Qin Xuan[3]

Resumo: Apesar do marxismo ter perdido prestígio nas últimas décadas, precisamos restaurar sua importância. Para tal, é necessário um balanço acerca da cientificidade e do caráter global do marxismo. Para compreender a dinâmica da nossa época é fundamental entender esta teoria nascida na Europa que mudou o destino do povo chinês.

Palavras-Chave: Marxismo; Teoria norteadora; Socialismo com características Chinesas

Abstract: Although Marxism lost its prestige in recent decades; we need to restore its importance. In order to do this, we need to reexamine the scientific and global character of Marxism. This theory born in Europe has changed the fate of the Chinese people, which is why understanding it is fundamental to understanding the dynamics of our time.

Keywords: Marxism; Guiding Theory; Socialism with Chinese characteristics

O marxismo tem sido a ideologia orientadora do Partido Comunista da China por mais de 90 anos, estando presente na constituição da República Popular da China por mais de meio século. Na China, o marxismo foi estabelecido como o pilar fundamental do Estado e de seu partido governante, tornando-se a base ideológica comum para a luta conjunta do povo e do Partido.

No cerne da construção dos valores socialistas, o marxismo é a essência, o fator decisivo que determina a natureza, a direção e a evolução de todos os processos referentes ao desenvolvimento do socialismo na China. Podemos argumentar que após a entrada definitiva do marxismo na China - uma ideia ocidental - houve uma mudança sensível na nação, no povo e até nas características do Partido Comunista da China. Desta forma, diversas questões se apresentam exigindo uma resposta, se o marxismo tem poderes milagrosos, então por que há tantas pessoas céticas em relação a ele? Por que não se acredita mais no marxismo? Indo direto ao ponto: Por que precisamos do Marxismo nos dias atuais?

1. Nós precisamos do marxismo porque é uma ciência e possui um caráter global

Primeiro ponto: o marxismo nasceu na Europa do século 19, portanto é um produto da civilização europeia. Em comparação com formas de pensamento originadas em outros lugares e culturas, o marxismo pode ser considerado como tendo um caráter “heterogêneo”. Em um determinado momento na Europa, o marxismo exerceu uma função norteadora, mas perdeu sua posição de prestígio devido as condições históricas e nacionais dos diversos países europeus. O marxismo nasceu na década de 1840, na Europa Ocidental, como uma grande inovação da época, fruto do desenvolvimento econômico-social e da ascensão das ciências naturais que proporcionaram as condições sociais e históricas necessárias para o surgimento desta teoria.

No início do século XIX, o capitalismo já estava consideravelmente desenvolvido na Europa Ocidental. Países como a Inglaterra, a França e a Alemanha passaram ou estavam passando pela Revolução Industrial, um processo que elevou a produtividade, a ciência e tecnologia a níveis sem precedentes na História humana. Nesta época, o proletariado industrial começou a transformar-se de “classe em si” para “classe para si”.

Nas décadas de 1830 e 1840, o movimento cartista britânico, o levante dos trabalhadores em Lyon na França e a sublevação dos tecelões da Silésia na Alemanha simbolizaram a entrada do proletariado como força política no palco da história. Neste sentido, o marxismo é fruto da elaboração teórica realizada por Karl Marx e Friedrich Engels com base na prática do movimento dos trabalhadores europeus no século XIX. Embora o marxismo tenha sua origem em um determinado recorte geográfico, absorveu milhares de anos do pensamento, do desenvolvimento cultural e das realizações da humanidade, particularmente das grandes conquistas do pensamento humano no século XIX, nomeadamente a filosofia clássica alemã, a economia política britânica e o socialismo utópico francês. O marxismo foi capaz de sintetizar estas três fontes em uma profunda análise científica - embasada na prática - das tendências na sociedade capitalista e da luta da classe trabalhadora desenvolvida em seu seio.

O período da Restauração na França (1814-1848) e os estudos dos pensadores iluministas forneceram a base para a teoria da luta de classes que, por sua vez, serviu de pilar para a elaboração do socialismo científico. As conquistas científicas e tecnológicas do século XIX como a descoberta da teoria celular, da lei de conservação de energia e os novos desenvolvimentos na teoria da evolução, colocaram a razão no centro do pensamento humano e estabeleceram bases sólidas para as ciência naturais e para a criação do marxismo. Como Lênin apontou:

"o marxismo conquistou a sua significação histórica como ideologia do proletariado revolucionário porque não repudiou de modo algum as mais valiosas conquistas da época burguesa, mas, pelo contrário, assimilou e reelaborou tudo o que houve de mais valiosos em mais de dois mil anos de desenvolvimento do pensamento e da cultura humanos" (LÊNIN, 1980, p. 398-399)

Portanto, embora o marxismo tenha sido produzido na Europa, não é algo exclusivamente dela, mas sim um patrimônio cultural e científico de toda a humanidade. É uma conquista gigantesca na história do pensamento humano que não pode circunscrever-se a apenas um local. É universal. Portanto, justamente por este caráter universal, o marxismo se disseminou pelo mundo desde o século XIX, tornando-se o instrumento fundamental na luta política e ideológica da classe trabalhadora por sua libertação.

Ponto dois: o marxismo, embora patrimônio da humanidade, é uma dentre as várias realizações teóricas da civilização humana, mas então por que devemos insistir e defender o marxismo?

Deng Xiaoping disse : "Ao estudar o marxismo-leninismo devemos ser eficazes" (DENG, 1994, p. 369), "eficácia" é um conceito imprescindível. A razão pela qual enfatizamos a defesa do marxismo como escolha fundamental e eficaz, em detrimento de diversas outras teorias, é porque o marxismo possui caráter científico.

Para definir a cientificidade de uma teoria precisamos observar alguns pontos: primeiro se está embasada em uma metodologia científica; segundo se possui um quadro teórico correto; terceiro se consegue sustentar suas hipóteses com vitalidade; quarto se consegue ter efeitos práticos de orientação.

A metodologia do marxismo e sua visão de mundo são científicas. O materialismo histórico e o materialismo dialético são instrumentos teóricos fundamentais utilizados para analisar as contradições inerentes do capitalismo, descortinar as leis do desenvolvimento da História e apontar a direção correta para o progresso e desenvolvimento da humanidade. Ambos estão embasados na prática e fornecem um arsenal teórico para transformar o mundo. O marxismo representa, do ponto de vista científico, os interesses da grande maioria dos seres humanos e a busca pela realização dos interesses fundamentais das massas, cujo objetivo final é conseguir a libertação de toda a humanidade e proporcionar o desenvolvimento integral e abrangente dos seres humanos.

O marxismo consegue sustentar suas hipóteses com vitalidade. O marxismo é um sistema teórico que evoluiu com os tempos, sempre avançando e constantemente enriquecendo seu desenvolvimento na prática, principalmente nos países onde houve um processo de combinação do método com as condições nacionais. A combinação do marxismo com a prática concreta da Revolução Russa deu origem ao leninismo, um grande avanço para o socialismo científico. A combinação do marxismo-leninismo com as condições nacionais da China criou o pensamento de Mao Zedong e o sistema teórico do Socialismo com características Chinesas. Como resultado, os comunistas chineses através da prática do socialismo na China vem constantemente expandindo as fronteiras do marxismo.

Por fim, o fator mais importante de todos é a observação da prática. A prática é o único critério para testar a verdade. O marxismo é um teoria baseada na prática, cujo objetivo é transformar o mundo e, portanto, necessita ter suas hipóteses constantemente testadas e desenvolvidas na realidade prática. A natureza científica e verdadeira do marxismo tem sido testada por mais de cem anos através do movimento comunista internacional e das revoluções no século XX, especialmente através da bem sucedida Revolução Chinesa que tirou a China do atraso e a colocou como uma grande potência no mundo. Isto nos leva a concluir que aderir ao marxismo como teoria norteadora é defender a verdade, é insistir no desenvolvimento científico, é respeitar os interesses da imensa maioria do povo.

Ponto três: Se o marxismo pertence a toda a humanidade, por que o marxismo foi abandonado na Europa , seu local de produção? Por que apesar de nos dias atuais o marxismo ser cada vez menos utilizado como teoria norteadora de estados e partidos devemos insistir nele?

Deve-se reconhecer que o marxismo assume a visão de mundo da classe trabalhadora. Neste sentido, ele se torna a forma pela qual o proletariado compreende o mundo e sua principal arma ideológica na luta de classes pela sua emancipação.

O marxismo - apesar de ser uma teoria científica que busca a emancipação humana - não logrou êxito em tornar-se ideologia dominante nos países capitalistas desenvolvidos ocidentais, mesmo após o movimento comunista internacional ter produzido um impacto importante e de longo alcance no mundo.

Diversos partidos de esquerda na Europa Ocidental que conseguiram constituir governos tiveram como influência o marxismo, porém apenas como uma referência dentre tantas outras influências teóricas.

Embora ainda existam diversos partidos comunistas na Europa, seu número é bastante reduzido. O abandono do marxismo pelo Ocidente aconteceu pelos seguintes fatos:

Em primeiro lugar, o marxismo foi a ideologia orientadora do movimento operário na Europa e do movimento comunista internacional. Apesar do marxismo ter ocupado uma posição de destaque nos países capitalistas avançados, por mais de 160 anos os “espectros de Marx” vagaram pelo mundo (DERRIDA, 1994). O marxismo competiu com diversos tipos de pensamento e ideias reacionárias burguesas e pequeno-burguesas, e até com uma variedade de pensamentos oportunistas e revisionistas dentro do próprio movimento dos trabalhadores. Após repetidas lutas, conseguiu desenvolver-se e crescer para, eventualmente, estabelecer-se como teoria norteadora do movimento internacional dos trabalhadores. Como o líder da Revolução Russa apontou: “A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à humanidade, à classe operária sobretudo, poderosos instrumentos de conhecimento.” (LÊNIN, 1986, p. 35)

Atualmente, o marxismo ainda é a arma ideológica da classe trabalhadora para sua emancipação. A visão marxista para o futuro da sociedade ainda inspira a classe trabalhadora na luta para alcançar seus próprios interesses. Após a Guerra Fria, alguns estudiosos ocidentais renomados deram reconhecimento pleno as conquistas históricas do marxismo, como Derrida que afirmou: “ Não haverá futuro sem isto. Não sem Marx, não há futuro sem Marx, sem a memória e sem a herança de Marx: em todo caso, de um certo Marx, de seu gênio, de um ao menos de seus espíritos.” (DERRIDA, 1994, p. 14)

Em segundo lugar, a metodologia do marxismo sempre esteve na consciência dos homens como uma maneira de conhecer e transformar o mundo. Engels - um dos fundadores do marxismo – durante seus últimos anos de vida sublinhou repetidamente: “Todo o modo de concepção de Marx, porém, não é uma doutrina, mas um método. Não dá quaisquer dogmas prontos, mas pontos de apoio para uma investigação ulterior e o método para esta investigação.” (MAKESI, 1979, p. 406) Lenin apontou de maneira mais explicita: "Marx, por outro lado, considera que o valor total de sua teoria está no fato de que é ‘em sua essência, crítica e revolucionária’." (LIENING, 2009, p. 213)

Como uma teoria crítica, aponta para a natureza do desenvolvimento do capitalismo e as contradições fundamentais da sociedade capitalista, oferecendo uma abordagem científica da História dos povos e do destino da sociedade humana. Derrida em “Espectros de Marx” argumenta que para resolver os flagelos do capitalismo moderno não podemos nos separar do espírito crítico proposto pelo marxismo. Como uma teoria revolucionária, orienta o proletariado de todos os países a realizar uma análise detalhada de sua situação real para compreender suas próprias características e condições especiais com o intuito de desenvolver diretrizes, programas e linhas políticas.

No entanto, a situação do marxismo ainda permanece cheia de contradições no Ocidente. Embora alguns acadêmicos ocidentais não se reconheçam como marxistas, sempre utilizam de maneira camuflada uma abordagem marxista. Até mesmo governantes de países capitalistas avançados, extremamente antimarxistas, muitas vezes procuram aliviar suas abordagens contraditórias através da teoria marxista.

Em terceiro lugar, o estudo acadêmico do marxismo sempre existiu em diversos períodos, em vários países, em variadas áreas do conhecimento sob perspectivas acadêmicas diferentes. Desde o seu surgimento, os textos de Marx e Engels tem sido objeto de estudo de diversas disciplinas científicas. Durante o século XX, nas sociedades ocidentais, existiram diferentes escolas do marxismo que mesmo após o fim da Guerra Fria ainda continuaram a se desenvolver dentro do chamado marxismo ocidental. Embora os países da antiga URSS tenham embarcado no caminho da restauração capitalista e na negação do papel norteador do marxismo-leninismo, o progresso social trazido pelo socialismo não foi esquecido. Atualmente na Rússia, por exemplo, ainda há estudiosos dedicados a reler Marx para buscar novas reflexões e compreensões.

Em quarto lugar, como um todo, o marxismo ainda está "vivo". Por ocasião da virada do milênio, a British Broadcasting Corporation (BBC), a Universidade de Cambridge, a Reuters, entre outros meios de comunicação ocidentais, realizaram uma seleção para descobrir o "Pensador do Milênio", entre outras atividades relacionadas. Os resultados apontaram Karl Marx no topo da lista como o maior pensador do milênio. Quando eclodiu a crise financeira internacional de 2008, houve um aumento substancial nas vendas do “O Capital” de Marx por toda a Europa. O interesse foi tanto que a obra ganhou um áudio-livro em seis discos para facilitar o estudo. Na opinião de muitos analistas, uma leitura marxista da crise financeira internacional tornou-se imprescindível para buscar uma solução e superar as turbulência. Estes fatos ilustram uma verdade: mesmo que a situação no mundo esteja em constante mudança, a tendência geral do desenvolvimento histórico não está circunscrita na interpretação que certos autores ocidentais clássicos fazem sobre as leis básicas do marxismo. O marxismo é uma teoria que acompanha as épocas e é capaz de sempre se renovar com forte vitalidade.

Em suma, o marxismo nasceu na Europa e se expandiu pelo mundo afetando o destino de milhões de pessoas através da combinação do movimento dos trabalhadores em âmbito nacional com o movimento internacional comunista, tornando-se a força motriz na causa pela libertação nacional da maioria dos povos oprimidos. Podemos dizer que em toda história do pensamento humano ainda não surgiu uma teoria capaz de influenciar de maneira tão profunda a cultura, a economia e o desenvolvimento social da humanidade como o marxismo fez.

2. Nós escolhemos o marxismo porque atende as necessidades do povo chinês

Ponto um: a China é uma civilização antiga e tradicional que possui uma rica cultura política capaz de gerir os assuntos do Estado. Antes da entrada do marxismo na China, a nação chinesa sobreviveu por milhares de anos atingindo enormes conquistas em todos os campos. Então por que tivemos que “importar” o marxismo como teoria norteadora?

Devemos reconhecer que a cultura tradicional chinesa tem uma longa história e profundidade filosófica. Ela salienta a harmonia e a inclusão, razão pela qual nos dias atuais, a China vem se esforçando e colocando muita ênfase na construção de uma sociedade harmoniosa, na promoção da paz e no desenvolvimento mundial. O objetivo é que esta cultura milenar alcance o grande rejuvenescimento. Contudo, é preciso avaliar que, a cultura tradicional chinesa desenvolveu-se em uma civilização agrícola com uma sociedade fechada, feudal e baseada em relações de parentesco. Isto, baseando se nas condições da China contemporânea, torna muito complicada a sua adaptação para a sociedade industrial, na economia de mercado e no socialismo. Os comunistas chineses e a nação chinesa se respaldaram na combinação do marxismo com a realidade chinesa para realizar as grandes conquistas da independência nacional e da modernização socialista. Os últimos cem anos da história chinesa demonstraram que o pensamento tradicional chinês não pode garantir o rejuvenescimento da cultura chinesa, a sua independência e modernização. Em 1942, na base revolucionária de Yan’an, Mao Zedong em conversa com Kuang Yaming destacou que o papel de Confúcio dentro da história da China era de um grande homem. Dentro de seu pensamento há pontos positivos e negativos, porém devemos estudá-lo criticamente e entendê-lo como patrimônio histórico. Na perspectiva do movimento revolucionário, o confucionismo é parte da história da China, mas o movimento deve ser guiado pela teoria marxista. (KUANG, 1985, p. 474)

A cultura tradicional tem seu valor. Quando dizemos combinar o marxismo com as condições reais da China, estamos implicando tanto a realidade contemporânea chinesa, quanto a cultura tradicional. Um processo importante na sinicização do marxismo é tornar os princípios básicos do marxismo integrados com a cultura nacional de modo que se torne parte integrante do desenvolvimento cultural chinês como um todo para que prospere e cresça em solo chinês. As mudanças sociais ocorridas na China moderna atestam o lado negativo da cultura tradicional chinesa e a força do marxismo. Caso o marxismo não consiga se enraizar na cultura chinesa e, ao contrário, a cultura tradicional se firmar como pensamento guiador, haverá um retrocesso histórico, um contra fluxo em relação as leis do desenvolvimento das sociedades humanas.

Ponto dois: Marx e Engels apesar de escreverem um pouco sobre a China, nunca colocaram o país no centro das grandes questões do marxismo. O marxismo é um pensamento tipicamente ocidental, então por que o povo chinês o aceitou?

O marxismo se espalhou pela China no final do século XIX, início do XX, em conjunto com muitas teorias ocidentais, sem ocupar um papel proeminente. Apesar de Marx, Engels e Lênin estudarem a questão da China e a revolução chinesa, seus escritos podem ser sumarizados em um livro (MAKESI e ENGESI, 1997). As condições da época impuseram a eles um conhecimento limitado a respeito da história, cultura e filosofia chinesa. Contudo, mesmo nessas condições adversas, o marxismo entrou na China e se tornou a teoria norteadora do povo chinês, o que aponta para a inevitabilidade histórica deste processo. Podemos observar três aspectos que compravam isso:

Primeiro, o marxismo é uma ciência, embasado em um método científico. Esta discussão já foi apresentado anteriormente na primeira seção deste artigo.

Segundo, o marxismo e a cultura tradicional chinesa tem um alto grau de complementaridade. Na segunda década do século XX, Guo Moruo publicou um pequeno artigo intitulado “ Marx entra no templo de Confúcio”( 马克思进孔庙) onde escreveu: “ Marx disse para Confúcio: Eu não posso pensar como dois mil anos atrás, mas no extremo oriente, você é um velho camarada cujo ponto de vista é consistente com o meu” (GUO, 1985, p. 161). Meio século atrás, o professor britânico da Universidade de Cambridge, Joseph Needham acrescentou: “ Muitos ocidentais acham inconcebível que os chineses modernos aceitem tão facilmente o materialismo dialético (Marx). Eles não entendem como uma nação oriental tão antiga aceitou sem hesitação, com confiança total, um pensamento que em primeira instância é uma ideologia europeia. No entanto, na minha imaginação, estudiosos chineses diriam: ‘Excelente! Isto não é eterno, parece com nossa própria filosofia e atualizada, que combinada com a ciência moderna retornou para nós!’ A razão pela qual os intelectuais chineses estavam dispostos a aceitar o materialismo dialético foi porque, em certo sentido, essa filosofia parecia com a que eles próprios produziam.” (LIYUESE, 1987, p. 67) Needham pode não ter sido preciso, mas ele aponta para um elo existente entre a cultura tradicional chinesa e o marxismo.

O marxismo e a cultural tradicional chinesa possui um ponto de encontro, diversos intelectuais chineses sob diversas perspectivas tem procurado explorar esse elo. Zhang Dainian, Cheng Yishan pensam que o povo chinês, em especial os intelectuais, aceitaram o marxismo devido a sua similaridade com a cultura tradicional. “A cultura tradicional da China tem longa tradição de materialismo e ateísmo, democracia, ideias humanitárias, possui vários aspectos que compõe o materialismo histórico, ideais sociais como grande harmonia (datong) e assim por diante. Isto fez com que o marxismo se enraizasse facilmente em solo chinês.” (ZHANG e CHENG, 1990, p. 190) Wu Yannan também pensava que a China é um país com uma longa história cultural. Esta deixou diversas heranças, como por exemplo conceitos que entrariam no pensamento democrático chinês no longo prazo, “a ideia de datong do confucionismo enfatiza que todos os países devem perseguir este ideal baseado no conceito de comunidade, ideia também presente no conceito daoísta do wuwei, reflete diversos fatores do socialismo, apesar desses fatores serem utópicos, subjetivos e religiosos Estas ideias, até certo ponto, facilitaram para os intelectuais chineses a aceitarem a sofisticação intelectual do socialismo cientifico, pois as bases psicológicas já estavam presentes.” (YANNAN, 1998, p. 471)

Em terceiro lugar, o povo chinês a aceitou o marxismo por necessidade. Mao Zedong uma vez disse: “O marxismo-Leninismo, uma vez introduzido na China, tem desempenhado um papel tão importante porque as condições sociais da China assim o exigem, porque está associado com a prática da revolução chinesa e porque o povo chinês o tem assimilado” (MAO, 1967, p. 457). Desde os tempos modernos, em face da cada vez mais grave crise nacional, os elementos avançados da China reconheceram que o pensamento tradicional chinês, por exemplo o confucionismo, não era capaz de salvar a China. Neste sentido, eles procuraram a salvação nas “habilidades tecnológicas” e em “aprender com as tecnologias avançadas do ocidente para resistir a invasão dos poderes ocidentais”; voltaram-se para a civilização ocidental, buscando a reforma como caminho, convidando a ciência e a democracia ocidental a entrarem na China. Estes intelectuais esperavam que a democracia burguesa poderia salvar a China, mas “o professor sempre brinca com o estudante”, a agressão imperialista quebrou o sonho chinês de estudar com o ocidente. A China moderna precisava da ciência, democracia, liberdade, direitos humanos, mas o democracia burguesa, o liberalismo e a república de estilo ocidental não conseguiram triunfar no país.

Nos primeiros 20 anos do século XX, o povo chinês aceitou o marxismo e optou pelo socialismo. Naquela época, o ambiente interno e externo da China estava bastante conturbado. Após a Guerra Sino-Japonesa e o fracasso do movimento reformista, a China estava prestes a aceitar a civilização ocidental quando a Primeira Guerra Mundial expôs as deficiências da sociedade capitalista. Ademais, quando a escolha parecia se resumir apenas entre o capitalismo e o feudalismo, a Revolução de Outubro eclodiu demonstrando um caminho diferente. Sob a influência da vitória socialista na Rússia, o povo chinês voltou se para o estudo do marxismo e da experiência bolchevique. A construção do primeiro estado proletário do mundo mudou o espírito com o qual os chineses encaravam o marxismo.

A experiência soviética ocupou um papel de destaque ao abrir um caminho para que o povo chinês entendesse a situação vigente e estabelecesse as principais tarefas, desafios e oportunidades da revolução chinesa. A História escolheu o marxismo para mudar profundamente o destino da China. Mao Zedong, em seu texto sobre a “Sobre a Ditadura Democrático Popular” expressou isto: “Agradecemos a Marx, Engels, Lênin e Stálin que nos deram uma arma. Essa arma não é a metralhadora, mas o marxismo-leninismo.” (MAO, 1967, p. 412)

3. Nós temos razão para aderir ao marxismo, pois ele ainda tem importante significado teórico e prático.

Ponto um: Atualmente, os países desenvolvidos do mundo são capitalistas e não tomam o marxismo com teoria norteadora, pelo contrário, opõem-se abertamente contra o marxismo. Se a prioridade da modernização chinesa é ultrapassar os países capitalistas, então por que não abandonamos o marxismo?

O objetivo do marxismo é derrubar o sistema de exploração e opressão capitalista e atingir a completa libertação do proletariado e das massas trabalhdores, é um teoria revolucionária a serviço da construção do socialismo e do comunismo. Engels assinalou: "Quando o comunismo se tornou uma teoria, se tornou a expressão da posição teórica da luta do proletariado, uma teoria para a emancipação do proletariado." (MAKESI e ENGESI , 1958, p. 312) Stalin também acrescentou que "o marxismo é a expressão científica dos interesses fundamentais da classe trabalhadora " (SIDALIN, 1956, p. 333), e justamente por isto, tem uma natureza de classe e é completamente revolucionário porque “oferece uma visão de mundo completa, sem superstições, sem forças reacionárias, capas de defender o proletariado contra a opressão burguesa” (LIENING, 1995, p. 309), por isso declarou inevitável a desgraça do capitalismo. Portanto, assim que o marxismo surgiu, foi sitiado pela burguesia e amplamente criticado pelos estudiosos burgueses.

A China é um país socialista liderado pelo Partido Comunista. “Nosso Partido desde o seu início, tem como base a teoria marxista-leninista, porque essa doutrina é a cristalização do pensamento científico do proletariado revolucionário mundial.” (MAO, 1967, p. 264) Na era da Reforma e Abertura, Deng Xiaoping também enfatizou que o PCCh é um grande partido marxista e que a China é um país socialista criado sob a orientação do marxismo onde é necessário levar a cabo a construção da modernização socialista. Portanto, a China contemporânea deve sempre aderir ao marxismo. Deng repetiu: “aderir ao marxismo é muito importante, aderir ao socialismo é também muito importante para a China...acreditar no marxismo, é força espiritual movendo a revolução chinesa à vitória...portanto, temos reiterado diversas vezes. Para aderir ao marxismo, aderir ao caminho socialista.” (DENG, 1994) Armado com o marxismo, o Partido Comunista da China, como a vanguarda do proletariado, deve liderar a revolução, a construção e a reforma socialista e consolidar o processo de desenvolvimento do socialismo para criar as condições básicas para a realização do comunismo.

Ponto dois: O marxismo nasceu no meio do século XIX. Na época de Marx fez uma análise acurada, mas no século XXI com todo o desenvolvimento que se seguiu, o marxismo se tornou “ultrapassado”, “velho” e “inútil”, então por que devemos aderir ao marxismo?

Devemos reconhecer que o marxismo nasceu no meio do século XIX como resultado de um período de expansão e desenvolvimento do capitalismo, das condições históricas lançadas pela segunda revolução tecnológica. Os tempos mudaram e o capitalismo também mudou. No entanto, o marxismo com seu método científico consegue revelar a verdade, sendo a verdade sempre relativa e historicamente construída.

Os defensores da ideia do marxismo “teoria obsoleta” incorrem em, pelo menos, dois erros. O primeiro é uma questão de lógica, se argumentarmos assim, então podemos dizer que a antiga filosofia grega e chinesa são extremamente obsoletas, as próprias ideias iluministas - a alma dos pensadores burgueses - estão ultrapassadas. Nesse tipo de pensamento, não há nenhuma teoria que possa conduzir mudanças na sociedade , pois se toda teoria científica é concreta e histórica, então toda vez que houverem avanços, qualquer teoria será desatualizada e portanto impossível de orientar qualquer prática. Mesmo assim, apesar deste ponto de vista ser “fashion”, incorre em um erro de dogmatismo, pois sustenta uma visão do marxismo como dogmático e imutável. Os críticos não entenderam que acompanhar os avanços de cada época é a principal qualidade teórica do marxismo. Isto, também é um erro de lógica. Eles não assumem que o marxismo revela as leis objetivas do desenvolvimento da história, como um método para estudar e resolver problemas. Eles não colocam o marxismo como um todo, apenas fazem conclusões individuais dogmáticas, um vez que por princípio esta teoria seria incapaz de explicar as mudanças e, portanto, insistem em dizer que o marxismo é “obsoleto” e desatualizado.

Contudo, devemos apontar que diversos textos marxista-leninistas - incluindo obras clássicas como o Manifesto Comunista - são datadas, porém seus princípios básicos não são desatualizados. Os próprios Marx e Engels reconhecerem isto em um prefácio escrito em alemão do Manifesto Comunista publicado em 1872: “ as observações sobre as relações dos comunistas com os diferentes partidos de oposição (seção IV), embora em princípio corretas, na prática estão desatualizadas, pois a situação política modificou-se totalmente”. (MAKESI e ENGESI, 2009, p. 96)

O marxismo, embora seja nativo do século XIX, não limita o seu significado prático aquele período. Atualmente, vivemos em uma época de grandes mudanças, o capitalismo é bem diferente do testemunhado por Marx e Engels, mas o método de análise elaborado pelos dois ainda permanece atual. A lei do desenvolvimento das sociedades humanas não mudou. Apesar de tudo, a transição do capitalismo para o socialismo continuará, pois as mudanças e desenvolvimentos da sociedade capitalista não colocaram fim aos problemas e contradições expostos por Marx. Embora a causa socialista tenha sofrido reveses, a busca por um futuro e uma sociedade melhor ainda prevalecem. Estes reveses, além de algumas razões históricas complexas, foi devido ao desvio e abandono do marxismo. A história tem provado repetidamente que o marxismo tem uma visão de mundo e uma metodologia científica que nunca foi "ultrapassada" ou "inadequada” dentro da história do movimento operário. A história provará que ele nunca se tornará obsoleto.

Ponto três: o marxismo é um teoria que fala sobre revolução, que enfatiza a luta de classes e “não se aplica” na construção de uma país. A China está empenhada na construção e reforma, a ênfase é “tomar a construção econômica como o centro” e construir uma sociedade harmoniosa, por que ainda precisamos do marxismo?

Em primeiro lugar, temos de esclarecer que o marxismo é composto por vários princípios e perspectivas que compõe seu sistema científico. No entanto, é importante distinguir o juízo individual dos avanços científicos feitos pelos escritos clássicos. Deng Xiaoping nos avisou “devemos ter o entendimento completo do sistema do marxismo-leninismo, (...)não podemos cometer erros.” (DENG, 1994, p. 67) “Quanto ao julgamento individual, (...)tanto Marx, Lênin e o camarada Mao Zedong, inevitavelmente cometeram erros. Mas estes não são parte do sistema cientifico do marxismo-leninismo, do pensamento de Mao Zedong.” (DENG, 1994, p. 171)

O marxismo possui uma série de conceitos, elaborados sob certas condições históricas para determinadas questões específicas, inesperáveis de um certo tempo e espaço que não podem ser aplicados como uma panaceia em todos os lugares. Os princípios básicos do marxismo tem universalidade, mas devem ser compreendidos dentro do sistema teórico como um todo e não através de palavras individuais de cada autor clássico. O conceito de luta de classes pertence aos princípios básicos do marxismo, mas este não se resume apenas a isso. De qualquer forma, a ideia de luta de classes ainda tem um significado teórico e prático importante. Na situação atual da China, ainda existem classes sociais? As contradições de classe desaparecerem? Ainda existe luta de classes? Insistir na construção de uma sociedade harmoniosa com “a construção econômica como seu centro” não é negar a teoria marxista e a luta de classes e não significa abandonar o marxismo como guia.

Em segundo lugar, temos que esclarecer que a razão fundamental das grandes conquistas através do sucesso da Reforma e Abertura da China é porque aderimos aos princípios básicos do marxismo, atualizados para a nossa época, de acordo com as características nacionais e com a realidade da China; é porque o Partido Comunista da China continuou avançando no processo de sinicização do marxismo, abrindo caminho para o socialismo com características chinesas e formando um sistema teórico próprio. Atualmente, a Reforma e Abertura da China está em uma nova fase de desenvolvimento, como Deng Xiaoping disse: “no passado nós dissemos desenvolvimento primeiro. Agora, devemos nos preocupar em não deixar o desenvolvimento ser apenas para poucos” (LENG e ZHANG, 2004, p. 1364). A China enfrentará muitos desafios para prosseguir se desenvolvendo, portanto precisa insistir em tomar o marxismo como teoria norteadora para elaborar soluções corretas. Por isto, o Partido Comunista da China enfatiza repetidamente que devemos nos centrar na construção do socialismo com características chinesas, nos problemas atuais da Reforma e Abertura e da modernização; devemos nos focar na utilização da teoria marxista, em novas reflexões teóricas, focando em novas práticas e novos desenvolvimentos.

Por fim, é preciso esclarecer que a China aderirá ao marxismo adaptado a realidade chinesa. A grande vitalidade do marxismo advém de sua característica de poder ser combinado com a realidade e condição nacional de uma nação. Deng Xiaoping assinalou: “nós declaramos repetidamente que iremos aderir ao marxismo e permanecer no caminho socialista. Mas por marxismo nós nos referimos ao marxismo adaptado as condições chinesas, e por socialismo nós nos referimos ao socialismo que é adaptado as condições chinesas e tem características chinesas.” (DENG, 1994, p. 63)

O sistema teórico do socialismo com características chinesas, adere e desenvolve o marxismo-leninismo. O pensamento de Mao Zedong é uma das grandes conquistas da sinicização do marxismo; é a base ideológica para unidade e luta de todas as nacionalidades do povo chinês; é o patrimônio político e espiritual mais valioso do Partido Comunista da China. Por isto, o reporte do congresso do Partido enfatizou que na China contemporânea, aderir ao sistema teórico do socialismo com características chinesas é permanecer fiel ao marxismo.

Referências

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[1] Texto original publicado no periódico 中国特色社会主义理论体系研究 e traduzido do mandarim para o português por Gaio Doria, bolsista do CNPq e doutorando no Instituto de Marxismo da Universidade do Povo da China. E-mail: gaiodoria@gmail.com [2] Nota do tradutor: Busquei preservar nesta tradução o estilo original do discurso do texto. No tocante as referências bibliográficas e as citações busquei procurar versões em português quando existentes, do contrário, a tradução foi feita de acordo com o mandarim. O título original é 《我们为什么需要马克思主义?》. [3] Professor doutor do Instituto de Marxismo da Universidade do Povo da China.

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